segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Serviço Militar Obrigatório

          O Brasil é o país das semi-leis, aquelas normas que determinam os deveres dos cidadãos, mas só são cumpridas por quem não consegue contorná-las. O serviço militar obrigatório é um ótimo exemplo disso. Teoricamente, a participação no Serviço Militar Obrigatório é um dever de todo cidadão do sexo masculino e que goze de boas condições físicas e psicológicas. Mas o que acontece, na prática - e todo mundo sabe disso - é que nenhum jovem que tenha parentes influentes presta o serviço militar. Eu mesmo já presenciei dispensas de pessoas em plenas condições de participar do programa. A princípio, imaginei que o dispensado teria alguma justificativa plausível como estudos, trabalho ou algo do gênero. Mas soube depois que o jovem em questão não estudava e nem trabalhava. Só não prestou o serviço militar porque era filho do Dr. Fulano de Tal.
            Em parte, devemos o nosso Serviço Militar Obrigatório ao poeta parnasiano Olavo Bilac, que foi um dos influentes nomes do movimento pela implantação da Conscrição (obrigatoriedade do serviço militar). E o que é mais interessante: em contraste com a liberdade expressa por ele em versos como o soneto "Como quisesse livre ser", o mesmo Olavo Bilac lutava pela instituição de um serviço obrigatório. E, até onde sei, esse mesmo Olavo Bilac, patrono do Serviço Militar... não prestou serviço militar. Que poético!...
        Anos antes do meu alistamento, Gabriel - o pensador - lançou seu primeiro álbum e uma música chamou minha atenção pelo título: Indecência Militar:


          E é bem isso mesmo: uma indecência, uma afronta à idéia de liberdade. O serviço militar obrigatório é a inclusão forçada de um patriotismo vazio e fraco, que só se manifesta porque não há outra opção. Eu mesmo, que sou patriota no sentido real da palavra, passei meses sentindo revolta toda vez que algo fazia referência às forças armadas, porque sempre me lembrava do diálogo que tive com o tenente no dia do alistamento. Com um monte de radiografias da minha coluna em forma de "S" de Sadia, me sentei:

Tenente, infelizmente, eu não posso prestar o serviço militar
Por que?
Problemas de coluna. Aqui estão as radiografias!
Hum... sei. Mas você vai servir.
O senhor não está entendendo! Olha aqui as radiografias, os atestados médicos...
É, mas você vai servir sim.
Mas eu não posso!
Mas vai.
Então vamo lá! Fazer o que, né!?!

         E servi mesmo! Enquanto isso, várias pessoas foram dispensadas por excesso de contingente. E o que eu aprendi com meu serviço militar? Nada que eu não pudesse aprender fora dele. Além do mais, os métodos  são ultrapassados, repetitivos e sem raciocínio nenhum. Está lá o soldado Martins1 fazendo abdominal num sol dos infernos no pátio. Chega o tenente e grita "Martins! O que você está fazendo?". E eu respondo:

Estou fazendo abdominal.
MAS NÃO É ASSIM QUE SE FAZ, MARTINS!!!
Esse é o jeito certo.
QUE JEITO CERTO O QUÊ, MARTINS!!! FAZ IGUAL TODO MUNDO, MARTINS!!!
Tudo bem.
NÃO É TUDO BEM, MARTINS!!! É "SIM, SENHOR"!!!
SIM, SENHOR!!!

           Época complicada da minha vida. É como eu sempre digo: serviço militar só é bom depois que acaba, por que enquanto você está lá dentro, eles te transformam em robôs camuflados e mal treinados.
            É bom começarem a enxergar o óbvio: se o serviço militar fosse destinado apenas aos que realmente querem prestá-lo, ganharíamos em qualidade com certeza.

Moral da história: Olavo Bilac, além de poeta pedante, nas horas vagas fazia bico como estraga prazeres da juventude brasileira.

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1. Martins sou eu, caro leitor!



2 comentários:

  1. Eu também servi !
    Ainda tenho alguns pesadelos com aquele lugar !
    Frase que o sargento sempre dizia pra mim:

    "Lopes !!!! (meu nome de guerra)
    Tira esse sorriso da cara, atirador !".
    kkkkkkkk

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  2. Ótima lembrança! Quando eu servi, o tenente tinha sotaque carioca, então as broncas ficavam meio em tom de descontração. Não tem como levar a sério com sotaque carioca. Há!...

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